Gentileza

Nossa! Blog vivo e Miyuki quase viva [de molho; resfriado; sem voz; estado febril; argh! Wanna my life back!].

Enfim. Eu já ouvi dezenas de relatos de pessoas que sofreram preconceito no Japão por serem estrangeiros. Tenho que dizer que isso NUNCA aconteceu comigo.

O mais próximo que vejo disso é que toda vez que entro numa loja de roupas chamada Shimamura [uma espécie de C&A japonesa], eles começam a tocar umas músicas em português [dizem que aquilo é bossa nova, mas é tão esquisito, umas músicas que nunca ouvi na vida… e olha que eu gosto de bossa nova! =P.] Isso me incomoda bastante, porque dizem que isso é uma maneira de “alertar” os clientes japoneses de que “perigosos” brasileiros estão na loja.

Enfim, mas é aquela coisa: toda vez que eu entro lá, sempre tem uns brasileiros não-nikkeis [geralmente eu ando com alguns deles hohoho]. Como a japonesada vive me confundindo, achando que eu sou daqui da terrinha, um dia vou lá no Shimamura sozinha pra ver o que acontece. Sim, nada justifica o comportamento preconceituoso deles, mas depois que a gente vê que os brasileiros estão entre os estrangeiros que mais cometem crimes no Japão [apesar de ter havido uma redução considerável nos últimos anos], até dá pra entender o lado deles.

Whatever. Brisei e fugi do assunto. No final de setembro [ó há quanto tempo eu tô pra escrever aqui e não consigo huahauhaua], recebi uma carta de uma vizinha. Não só eu, mas todos os vizinhos. Essa vizinha é japonesa e sabendo que muitos dos vizinhos são brasileiros, ela teve o cuidado de mandar traduzir a carta e, junto do bilhete, deixou um omiyage [lê-se omiyaguê, que é uma lembrancinha; pode ser qualquer coisa: um lencinho, um biscoitinho, um sabonete, uma toalhinha…], que, no caso, foi um detergente de grapefruit [nem sabia que existia detergente de grapefruit! o_O].

Vou reproduzir aqui o bilhete [igualzinho, com todos os erros de português mesmo]:

DESCULPA PELO TRANSTORNO

Boa tarde!

Sou Taniguchi, moro na casa de frente a sua sacada. Como a casa que moro tem mais de 25 anos, devido ao desgaste apresenta estragos no banheiro (ofurô), na cozinha e o segundo andar, necessitando-se de reformas.

O serviço principal será a reforma do banheiro (ofurô), que antigamente era construído de concreto. Para demolir o concreto é necessário utilizar martelete que é muitíssimo barulhento.

#no início de outubro (mês 10/1 a 10/14) será realizada a demolição do concreto.
#o período da obra é previsto entre 10/1 a 12/6.

Foi pedido à construtora um serviço rápido e como a casa se localiza muito próxima do prédio de apartamentos as vibrações poderão ser intensas.

Os carros da construtora e o barulho podem atrapalhar seu cotidiano, porém se tiveres reclamações, favor comunicar-se com os responsáveis pela construção.

Trouxe esta carta para fazer o comunicado e gostaria a sua compreensão.

Eu também já trabalhei em turnos alternados (2 kotai e 3 kotai), por isto compreendo muito o incômodo que causarei com o barulho… não conseguirá dormir como sempre… ouvi falar tem têm pessoas que trabalham em turnos alternados.

Sinceramente pensei muito, preocupada com o incômodo que causarei, mas já faz 1 ano que o banheiro está estragado e os meus filhos estão cansados de ir todos os dias ao ofurô público para tomar banho.

Por este motivo peço a compreensão de todos e um profundo pedido de desculpas para as pessoas que têm bebês.

Muito grata!!

Agora, me fala: naonde que uma atitude dessa acontece no Brasil? Eu, sinceramente, nunca vi e nunca ouvi falar. Pelo contrário. Minha reação, ao receber esta carta foi, primeiro, de espanto. Depois, fiquei emocionada [sérião!] e embasbacada com a gentileza da sra. Taniguchi. Ainda estou embasbacada. Um dos meus vizinhos, brasileiro, comentou: “o que faz do Japão um país de primeiro mundo não é toda essa tecnologia nem o dinheiro; é a educação do pessoal”. E eu concordo.

Essa carta da vizinha foi só um exemplo, mas vira e mexe eu fico surpresa com a gentileza do povo daqui. Por exemplo: a empresa que faz o transporte dos funcionários de onde trabalho tem três motoristas que se alternam durante a semana; como eu moro “longe” do ponto do ônibus [um pouco menos de 10 minutos a pé], um deles sempre desvia do caminho na volta e nos deixa a apenas uma quadra de casa.

Quando chove muito, os outros motoristas também dão um jeito de desviar e fazer esse outro caminho. Antigamente todos eles faziam isso, mas algum brasileiro totalmente IDIOTA resolveu reclamar e os motoristas levaram uma comida de rabo bronca da chefia deles. Só que um deles, mais rebelde [e mais velho também! Mais de 70 anos!], falou: “Dane-se! Se quiserem me despedir, que despeçam! Eu faço esse trabalho não porque preciso, mas pra passar o tempo mesmo”. hauhauahauhauahauhauahuahauauhaa Esse mais rebelde também vive me dando balinhas, bolinhos… fui adotada! /o/

Em tempo: “kotai” é um termo que se usa quando se fala em “alternar”. Por exemplo, esses três motoristas que se alternam fazem “kotai”.

E quanto à reforma da sra. Taniguchi: eu não moro grudada nela; tem que atravessar a rua [mais pra ruela, tão pequena e estreita que é] pra chegar daqui até lá. O povo que mora grudado mesmo disse que ouviu barulho das marteladas só naquele período que ela especificou na carta e depois, nunca mais. Aqui em casa nós nunca ouvimos nenhum barulho vindo de lá. Impressionante!

É como dizia o Profeta Gentileza:
gentileza gera gentileza

Uma resposta to “Gentileza”

  1. Laura Says:

    HAHAHAHAHAHAHAHAHA chorei de rir nessa frase: “já faz 1 ano que o banheiro está estragado e os meus filhos estão cansados de ir todos os dias ao ofurô público para tomar banho.”

    imaginei a cena do banho público mesmo sem saber como é esse ofurô público, fiquei com dó dos pivetes, tipos “mãe, cansei de dividir a chuveirada com aquele tio bafo de bode, faz 01 ano mãe!” HAHAHAHAHAHAHAHA

    meu, é muito tempo 0o

    e eu moro num prédio parecido com o da foto [esqueci o nome =P], é parecidissimo, não tem zelador, não tem elevador, e só tem um apêzinho em cima e um embaixo. E qdo eu me mudei, conheci e cumprimentei todos e avisei que tenho uma mania absurda de ouvir som nas alturas e cantar desafinadamente, aviso dado, ninguém veio reclamar AINDA.


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