Último post (por enquanto)

Uma mudança brusca, inesperada, aconteceu e, de repente, minha estadia no Japão acabou.

Uma amiga mandou um poema de Manuel Bandeira que traduz bem o que se passa nesse momento:

O Mário de Andrade ausente

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.

Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Mas, né, não preciso estar no Japão para escrever sobre esse país feliz. Daqui a pouco eu volto (“daqui a pouco” beeem entre aspas porque ainda tenho uma pedreira grande para encarar… u_u’).

Tchau, Japão! Tiamu! Quando der, eu volto! _o/

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Goemon

Ishikawa Goemon [石川五右衛門], reza a lenda, era um ninja meio à la Robin Hood: roubava ouro e pertences dos ricos e distribuía a riqueza entre os pobres. Matou um montão de pessoas. Sim, era bandido.

Só que havia esse outro cara, Toyotomi Hideyoshi [石川五右衛門].

Hideyoshi foi um daimyo [senhor feudal] que viveu no Período Sengoku [1467-1573] que sucedeu seu antecessor, Oda Nobunaga, e é reconhecido como um dos nomes mais importantes da unificação do Japão [que antes era formado por vários Estados que viviam guerreando entre si yadda yadda yadda, o de sempre]. O período em que governou ficou conhecido como Período Momoyama [1568-1600].

Foi sob ordens dele que se iniciou a construção do famoso Castelo de Osaka [Osaka-jo – aliás, eu fui lá uns anos atrás! LINDO! Quero dizer, lindo por fora. Virou museu e é uma pena que tenha ficado MESMO com cara de museu por dentro, perdendo TODA E QUALQUER relação visual com a época; o lugar tem projeções holográficas, lojinhas… Adorei por fora, achei muito bom historicamente por dentro mas passou longe de me impressionar; eu acho que esperava me sentir mais na época, mesmo sabendo que museu tem toda aquela coisa de ambientação para as peças originais expostas não virarem poeira e coisital… =P]


Osaka-jo; ok, eu sei que a cor tá estranha, mas tirei essa foto num dia nublado em 2006 e eu tava LONGE de ter qualquer noção de fotografia [ainda tô, mas acho que evoluí um pouquinho]… e minha antiga câmera não deu conta de pegar o castelo inteirão… *sigh* Pena que não podia tirar foto na parte de dentro do castelo… =/

Entãããão. Dizem que o Hideyoshi assassinou [ou mandou assassinar] a esposa do Goemon, e ainda sequestrou o filhinho dele, Gobei. Daí, Goemon, muito irado, foi lá tentar assassinar o Hideyoshi, mas, acidentalmente, fez barulho ao bater em um sino mas que ninjazinho incompetente de merda!. Isso chamou a atenção da guarda do Hideyoshi. Preso, Goemon foi condenado a morrer COZIDO num caldeirão de ferro, junto com seu filho [Goemon ficou segurando o menino acima do nível da água, até morrer]. Hideyoshi era CRUEEELLL!!!

Enfiiim. Eu sei que o Hideyoshi existiu de verdade. Nunca havia ouvido falar do Goemon. Eu *acho* que esse cara foi só uma figura do folclore -nem procurando info para esse post achei muita coisa sobre a vida ele [só sobre a lenda]-, mas vou dar uma pesquisada melhor mais adiante…


Goemon e Gobei durante a execução

E tuuuudo isso é para escrever que estou com o filme Goemon aqui.

Era para ter assistido ontem, mas, né, é inverno. Ursos HIBERNAM no inverno. Eu sou um urso. Ontem foi minha folga e passei 2 horas e meia fora [compras na farmácia + restaurante MOINTO bom de udon] e o resto do dia… dormi. Fui dormir lá pelas 14h… acordei às 7h30 da manhã! E assim que finalizar o post vou lá dormir de novo porque tenho que ir trabalhar mais tarde vidinha de merda essa de ser pobre; preciso enriquecer logo ¬¬’

O trailer parece um jogo de video game, mas fiquei curiosa para ver. E olha que eu, particularmente, NÃO gosto de:
-visual de video game [quero dizer; não é que eu não gosto; eu DE-TES-TO];
-efeitos visuais o tempo inteeeeeiiiiro;
-lutas coreografadas;
-estética NADA-A-VER [Que que são essas roupas?? E esses cabelos?? Estamos vendo um mangá, é isso? Pô, até Vagabond -aliás, um dos melhores mangás que já li! ♥- e seu visual punk mas todo-mundo-bem-bonito-vamos-ser-modeléti tem estética mais condizente com a época retratada! ¬¬’]


“Olá. Até eu sou esteticamente mais fiel à História!”

Enfim. Pretendo assistir na minha próxima folga. Apesar dos pesares, parece interessante. E, se tem um fundo histórico, aí me atrai ainda mais. Tomara que seja bom. =)

“Guriiii”

Eu nem dou muita bola pra esse seriado um dia eu paro pra assistir DIREITO pra ver se resolvo gostar, mas não por enquanto [por enquanto, meu coração pertence ao House ♥ , mas Glee está para estrear na Fox Japan e aí colocaram o lutador de sumô havaiano Akebono Taro para cantar Don’t stop believin,’ do Journey oi, AMO essa música para o comercial.

É tão tosco, aleatório, sem noção e dá tanta vergonha alheia! E tem gordinhos fofos dançando bem felizinhos! [eles parecem marshmallows gigantes!!! *_*] E ainda tem japenglish!!!

AMEI! ♥

COMO não gostar disso??

HA HA HA! RUZÁÁÁÁ!!!

Mais um filme: Okuribito

Tô bolada [como o povo do RJ falava, quando eu morava lá]. Ontem eu até dei uma saída e fui jantar com duas amigas para desestressar um pouco, mas hoje, que eu planejava cortar os cabelos, ir à capital da província e ir ao mercado comprar cogumelos frescos para recheá-los com brie [estou MATANDO por isso!]… CHOVEU. Não que eu seja de açúcar e tal, mas choveu torrencialmente, ventou pra caramba, os vidros da minha janela ficaram batendo [achei que fossem quebrar] e teve trovões horríveis tenho medo de trovões, shame on me. E eu dependo de uma bicicleta. IMPOSSÍVEL pedalar hoje. Resultado: estou entediada, injuriada, com cabelos enormes e sem cogumelos. Fala sério. ¬¬”’

O lado bom é que passei o dia me empanturrando de brie [sem cogumelos! Hunf!] e assistindo filmes. E assisti “Okuribito“, que virou “A partida“, no Brasil. Como já tá virando hábito, chorei horrores. Não é exatamente um filme triste, mas é bonito e faz pensar. E o que é verdadeiramente bonito emociona, ora bolas.

Até uns dias atrás, tudo que eu sabia desse filme é que ele havia ganhado o Oscar de melhor produção estrangeira e que as emissoras de TV daqui ficaram um tempão falando sobre esse filme o tempo todo. Só que, como sempre, não dei a mínima. Primeiro porque não tenho o hábito de assistir TV [isso, desde antes de sair do Brasil] e só fui decorar o nome da película uns meses depois; segundo, porque falar “ganhou um Oscar” não tem o menor apelo sobre mim, então o Okuribito não estava mesmo no topo da minha lista de “por assistir”. De toda forma, finalmente parei para ver. E achei lindo.

Você para para maldito acordo ortográfico refletir em coisas como tabus, relacionamentos, sonhos, família, ideais, responsabilidade, perdão, mudanças de paradigma, respeito, amor, preconceitos, traumas… e tudo isso ouvindo Joe Hisaishi, que é um filho da mãe que sempre me faz chorar horrores tremendo compositor [é dele as trilhas de alguns filmes que adoro, como, por exemplo, Dolls, O castelo animado, Meu vizinho Totoro e Princesa Mononoke – é, ele trabalha pra caramba com o estúdio Ghibli]. Filme fodaço altamente recomendado.

Fiquei surpresa por encontrar um vídeo/resenha até decente sobre o filme no youtube [e é da Veja, então minha surpresa foi ainda maior].

Para entender qual o drama de Daigo e por que ele esconde seu novo ofício da própria esposa, é preciso saber um pouco mais da cultura japonesa. Há séculos que para eles o contato com cadáveres é considerada uma atividade impura. O desafio de Daigo é; portanto, mostrar por sua dedicação que seu trabalho é belo e tão digno quanto qualquer outro.
HOMEM NERD

A morte deixa de ser vista como plenamente material, e o diretor passa a extrair poesia e beleza dos últimos momentos do corpo na Terra. O trabalho do nokanshi é então compreendido como uma função nobre, que “limpa” o morto e dá-lhe a beleza que era sua em vida, deixa-o da melhor forma possível para que sua partida deste mundo seja digna, para seu último adeus para a família seja belo.
CULTURA DE BOLSO

Filmes

Para assistir. Sério. Mas, assim, serião. Mesmo.

Sou PÉSSIMA para escrever resenha de qualquer coisa, então não vou falar muito, só listar os filmes e alguns links escritos por pessoas que sabem o que estão escrevendo.

Eu só sei falar assim: ASSISTAM, PORQUE SÃO FILMES FODAS! \o/ Ou, ao menos, muito diferentes do que se está acostumado a ver no Ocidente [pelo menos, é diferente do que o povão, no geral, assiste].

MEMORIES OF MATSUKO
嫌われ松子の一生, Kiraware Matsuko no Isshō – 2006


Fiquei com cara de “WTF?” durante boa parte do tempo; esse filme me deixou mega deprê e quando não estava com cara de tacho, estava chorando. [shame on me]

Sem fazer spoilers, posso dizer-vos que o tema principal deste filme é o amor-próprio ou a falta dele, assim como a busca desse mesmo sentimento nas outras pessoas e todas as cabeçadas e lições da vida que daí advêm. Há muitas situações onde nos podemos rever de uma forma ou de outra com o que acontece aos personagens. Um filme que cumpre o seu objectivo, então: alto entretenimento aliado à transmissão de uma mensagem. Como toda a grande arte deveria ser.
*MAUS DA FITA

A estética de conto de fadas e de musical, que, numa primeira análise, vai contra o registo que o material original sugeriria é, afinal, uma emanação do desejo forte de Matsuko de conseguir ser feliz, num mundo onde parecem estar reunidas todas as condições, e mais algumas, para que o não seja.
*CINEDIE ASIA

DEPOIS DA VIDA
Wonderful Life, ワンダフルライフ, Wandafuru Raifu – 1998


Assisti pela primeira vez em 1998 ou 1999. Fiquei MUITO impressionada. Até hoje não consegui escolher uma única memória. =P

Depois da Vida nos mostra que, por mais dificuldades que possamos ter passado, haverá algum momento feliz que merece ficar registrado para a eternidade. A proposta é a de relevar todo o resto: assim deveríamos ter feito em vida. Depois da Vida nos dá a chance de nos vermos como alguém que pôde ser feliz, nem que seja por uma fração de segundos e que esta fração é o que realmente conta. É a felicidade o que conta e não, as mazelas mas que, diante delas, acabamos não registrando na memória que algumas vez, pelo menos uma, pudemos nos sentir bem dentro de nós mesmos, dentro de nossos corpos.
*CINEMA É A MINHA PRAIA

O filme também faz uma referência à artificialidade humana e também do cinema. (…) Isso serve para reforçar o caráter de falsidade das memórias, ontologicamente falando; mas isso não assume a postura de crítica. Uma certa hora, o chefe Nakamura diz que nossa percepção da lua varia de acordo com a luminosidade, mas que a lua em si não muda nunca; o mesmo pode ser dito sobre as memórias (ou sobre o filme em si). Todas as memórias escolhidas são, bem ou mal, coisas banais, seja um piquenique nos bambusais, ou uma dança de infância, ou mesmo o dia-a-dia de um casal (a única mais incrementada é um vôo de avião, que gera uma ótima sequência ao tentarem recriá-la no estúdio), mas são o que de mais significativo aconteceu para aquelas pessoas.
*CINE PLAYERS

GOZU
極道恐怖大劇場 牛頭 GOZU, Gokudō kyōfu dai-gekijō: Gozu – 2003


Okaaayyy… este É bizarro [nunca a palavra “bizarro” descreveu tão bem um filme como nesse caso]. E é também um filme nojento. E esquisito. E engraçado. E surreal. E perturbador. E te deixa com cara de “WTF?” em praticamente toda cena. E o diretor, Takashi Miike, é um anormal. Tenho medo dele.

Miike e o argumentista Sato Sakichi («Ichi the Killer») usam o yakuza eiga como ponto de partida para mais uma obra liberta de limitações estruturais, sem preocupações com a necessidade de fornecer explicações racionais para os acontecimentos estranhos que circundam a personagem central.
*CINEDIE ASIA

Gozu é, sem dúvida, o filme mais visual e psicologicamente marcante dos últimos anos. A narrativa é totalmente absorvida pelas situações sem nexo, aproximando-se este filme de um género inédito, original e perverso. Tudo o que se poderia contar nesta crítica não deve ser contado. As situações e as imagens tomam conta do espectador, e nesse momento ou saimos a meio do filme, ou imploramos por mais uma viagem ao mundo fantasista que só Miike pode criar.
*CINE ANARQUIA

Eu poderia deixar vinte milhões de links para resenhas e não daria para sequer dar uma idéia do que é a bizarrice em questão… “poderia”, mas quase não achei resenhas sobre esse filme =P As melhores resenhas que encontrei estão em inglês: Lunch, L.A. Times, Celluloid Dreams e Asian Film Reviews.

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ENCONTROS E DESENCONTROS
Lost in Translation – 2003


Não é um filme japonês, a diretora não é japonesa, os atores principais não são japoneses. A história, embora aconteça no Japão, não é sobre o Japão. E sobre esse filme eu posso me pronunciar, porque me identifico com ele em alguns aspectos.

Eu sou descendente de japoneses e fui criada de acordo com muitos costumes japas [como dá pra ver nesse post], mas sou MUITO ocidental também. Por isso, sempre fui uma estranha no Brasil e continuo sendo uma estranha no Japão. Mesmo convivendo com outros descendentes, sempre sou “a” estranha. Como sempre foi assim, eu meio que me acostumei, mas tem hora que enche o saco se sentir “a” deslocada e daí dá vontade de se ajustar um pouco [se bem que eu nunca me ajustei e duviiiido que um dia isso vá acontecer]. Então eu sofro choque cultural no Brasil, no Japão, na colônia japonesa no Brasil e na colônia brasileira no Japão.

Nesse filme, as personagens principais [e, olha, mais um ponto em comum, profissões “incomuns”; as personagens são uma filósofa e um ator – eu fiz artes visuais e acho que todas essas profissões são para quem “gosta” de sofrer porque a gente se questiona o tempo todo e só tem dúvidas e mais dúvidas e nenhuma resposta reconfortante =P], além de sofrer de insônia com o fuso horário, também se sentem deslocadas… costumes diferentes, idioma diferente, paisagem diferente [a paisagem urbana do Japão é MUITO diferente – …e a rural também =p], gestos diferentes, tudo diferente. E eles se aproximam porque, entre outras coisas, enxergam algo familiar um no outro. Eu tenho alguns momentos de ÓDIO por essas personagens, porque eles não se esforçam realmente para absorver algo diferente para eles, em termos de cultura [o que, para mim, é importantíssimo], o que poderia enriquecer suas formas de encarar o mundo, e ficam com cara de cu no bar do hotel, mas deixa pra lá…

Só que eu entendo essa sensação de insegurança, deslocamento, solidão e estranhamento deles e acabo pensando em várias coisas… e é isso o que me faz gostar tanto desse filme. \o/

Lost in Translation é estar num momento em que você não sabe exatamente o que fazer de sua vida, qual caminho seguir, mais questionamentos que respostas surgem dentro de você, mas você sabe que deve continuar caminhando, apesar de não saber direito para onde. Creio que qualquer um de nós sabe exatamente qual é a sensação. (…) Encontros e Desencontros é como um pedaço da vida real destacado do mundo cotidiano e imortalizado em película: é engraçado, mas ainda sim triste, é belo e, entretanto, duro e cruel. É, enfim, essencialmente humano.
*A GALÁXIA

Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, é um filme engraçado, doce e também amargo, que utiliza o deslocamento cultural como metáfora para descrever pessoas que ficaram deslocadas em suas próprias vidas.
*TERRA

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